O varejo alimentar está passando por mudanças importantes. Durante a minha palestra no encerramento da NRF em Nova York abordei quatro das que considero as mais importantes: aspectos econômicos, transformações demográficas, mudanças de comportamento do consumo e aumento da concorrência phygital.
Do ponto de vista econômico, a desvalorização do real diante do dólar provocou a redução do poder de compra dos consumidores brasileiros, tendo duas características relevantes. A primeira delas é o endividamento das famílias brasileiras. O último dado oficial do nosso governo mostra que 76% das famílias brasileiras hoje estão endividadas. Esse endividamento tem um segundo fator relacionado à transformação demográfica que é o envelhecimento da população. Na medida que as pessoas envelhecem, elas perdem parte da renda com a aposentadoria e passam a ter gastos maiores com a saúde.
Além do envelhecimento da população, há uma tendência de redução no número de pessoas por domicílio. Na década de 80, a média era de 4 pessoas por residência. Já esse número, atualmente, está em 2,9, com tendência a cair ainda mais. O tamanho físico dos imóveis também vem diminuindo. Na década de 80, o sonho do brasileiro médio era morar em um imóvel de 180 a 250 m², hoje o que mais se vende são unidades de 46 a 64 m².
Nos próximos 5 anos, teremos 21 milhões a mais de idosos no país e perderemos 8 milhões de jovens e crianças de 0 a 14 anos. Isso impacta significativamente o varejo e as relações de consumo. Antes a nossa próxima oportunidade de venda estava nas gerações mais novas, agora, ela está nas gerações mais avançadas. Isso significa que o Brasil terá cada vez mais domicílios menores, habitados por mulheres idosas vivendo sozinhas.
As lojas físicas também ganharam novos concorrentes nos últimos anos. O que mais preocupa o varejo físico não são as novas lojas na mesma região, mas sim a concorrência digital, principalmente as plataformas de delivery, que estão crescendo substancialmente e criando caminhos diretos para o consumidor, muitas vezes sem a necessidade de passar pelo varejo.
Mas como agir diante desse cenário? Uma das ações mais vantajosas é o compartilhamento de dados entre os varejistas, para que as compras sejam melhores e mais favoráveis ao consumidor final.
Outra estratégia relevante é o uso de benefícios e cashback para os consumidores. Quando há menos dinheiro disponível, o retorno de parte do valor gasto faz uma diferença significativa, permitindo que seja reutilizado em futuras compras.
Quanto à transformação demográfica, é fundamental adequar os formatos das lojas. Pessoas mais velhas têm hábitos diferentes dos jovens, e isso reflete em uma busca crescente por lojas menores, próximas de casa, com menor área física e um mix de produtos mais assertivo.
A análise de potencial das lojas também é essencial. Muitas vezes, varejistas focam em abrir novas unidades, mas não exploram todo o potencial de faturamento das lojas já existentes. Pequenos ajustes, como melhorias no estacionamento, check-out e mix de produtos podem gerar aumentos significativos no faturamento e margens.
A utilização da ciência do consumo se tornou um processo indispensável como forma de prever o comportamento de mercado do shopper e fazer com que a loja física seja um hub de experiências.
No centro de tudo, está o cliente. Compreendê-lo, conhecê-lo e perceber que, por trás de cada dado, existe um ser humano com sentimentos, necessidades e momentos de vida específicos, será cada vez mais essencial. Isso permitirá realizar uma hiperpersonalização de ofertas e conteúdos, além de escalá-las.